A resistência antimicrobiana é reconhecida como uma das maiores ameaças globais à saúde pública. Infecções que eram tratadas com relativa facilidade têm se tornado, progressivamente, mais difíceis de controlar, elevando taxas de complicações, tempo de internação e mortalidade.
O fenômeno não representa somente um desafio médico, mas econômico e estrutural para os sistemas de saúde, afinal em todo o mundo são registradas, por ano, 5 milhões de mortes relacionadas ao problema.
Embora o debate costume se concentrar no uso excessivo de antibióticos, o enfrentamento da resistência exige uma abordagem mais ampla. Um novo documento de posicionamento da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL) destaca um ponto essencial mas subestimado: o acesso ao diagnóstico rápido e preciso deve ocupar posição central nas estratégias de combate à resistência antimicrobiana.
Na prática clínica, especialmente em situações graves, médicos por vezes têm que iniciar o tratamento antes da confirmação laboratorial do agente infeccioso. Esse modelo, da terapia empírica, é frequentemente necessário para preservar vidas. No entanto, quando se torna regra em vez de exceção, contribui para o abuso de antibióticos de amplo espectro, favorecendo o surgimento de microrganismos resistentes.
A dificuldade está no tempo necessário para identificar o patógeno responsável pela infecção. Métodos tradicionais podem levar dias até a confirmação diagnóstica, período em que decisões terapêuticas são tomadas com base em probabilidades clínicas. Esse intervalo representa uma janela crítica.
Quanto maior o atraso na identificação correta do agente infeccioso, maior a chance de tratamentos inadequados, piora clínica e seleção de bactérias resistentes.
O posicionamento da CBDL reforça que o diagnóstico laboratorial deve ser compreendido como parte estratégica da assistência em saúde, e não apenas como etapa complementar. Avanços tecnológicos recentes permitem identificar patógenos e marcadores genéticos de resistência em poucas horas por meio de métodos moleculares e plataformas automatizadas. Essa capacidade transforma o manejo clínico ao possibilitar terapias direcionadas mais rapidamente, reduzindo o uso desnecessário de antibióticos e melhorando os desfechos dos pacientes.
Além do benefício individual, o diagnóstico rápido tem impacto coletivo. Dados laboratoriais estruturados fortalecem sistemas de vigilância epidemiológica, permitindo monitorar padrões de resistência, detectar surtos precocemente e orientar políticas públicas baseadas em evidências. Mesmo assim, o acesso ainda é desigual. Em muitos contextos, limitações estruturais e regulatórias dificultam a incorporação plena dessas tecnologias, criando um descompasso entre inovação disponível e prática assistencial.
Outro aspecto destacado pelo documento da CBDL é a relação direta entre diagnóstico e preparação para emergências sanitárias. A pandemia de COVID-19 evidenciou que sistemas diagnósticos robustos são fundamentais para respostas rápidas e coordenadas.
A resistência antimicrobiana segue lógica semelhante, mas de forma silenciosa e contínua. Sem monitoramento laboratorial consistente, novos padrões de resistência podem se disseminar antes mesmo de serem percebidos pelos sistemas de saúde.
O fortalecimento da capacidade diagnóstica amplia a visibilidade epidemiológica e permite intervenções precoces, reduzindo impactos clínicos e econômicos.
O Brasil reúne condições para avançar nesse cenário, incluindo expertise científica, rede laboratorial consolidada e crescente capacidade de inovação tecnológica. No entanto, o documento da CBDL aponta a necessidade de políticas que ampliem o acesso ao diagnóstico, incentivem a produção local e integrem dados laboratoriais aos sistemas de informação em saúde.
Tratar o diagnóstico como investimento, e não apenas custo assistencial, pode gerar ganhos expressivos ao reduzir internações prolongadas, evitar terapias inadequadas e preservar a eficácia dos antimicrobianos disponíveis. A integração entre setor público, indústria, academia e serviços de saúde surge como elemento-chave para acelerar essa transformação.
Historicamente, o enfrentamento da resistência antimicrobiana concentrou-se na busca por novos antibióticos. Embora essa estratégia permaneça importante, ela não é suficiente isoladamente. O desenvolvimento de novos medicamentos não acompanha a velocidade com que microrganismos desenvolvem resistência.
O caminho mais sustentável passa pelo uso mais racional das terapias existentes, e isso depende da capacidade de identificar corretamente o agente infeccioso desde o início do cuidado.
Fortalecer o diagnóstico é, portanto, fortalecer toda a cadeia de cuidado em saúde, protegendo pacientes, preservando medicamentos essenciais e contribuindo para a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
Guilherme Ambar é biólogo, CEO da Seegene Brasil e diretor de Inovação da CBDL
